Quarta-feira, Setembro 26, 2012

21 de Abril de 1942

Se estivesse viva, a minha mãe faria 65 anos no dia 21 de Abril. Morreu aos 45, ou seja, há 20 anos, após um longo período de visitas mais ou menos regulares a hospitais, clínicas e médicos. Tinha lúpus (na variante eritematoso sistémico), uma doença incurável, predominantemente feminina (9 em cada 10 doentes são mulheres), que leva o sistema imunológico a atacar células normais do corpo como se de vírus ou bactérias se tratassem. Faz parte das chamadas doenças auto-imunes. No caso da minha mãe, o quadro sintomático foi grave, pois, na altura, a doença era muito pouco conhecida e ela esteve anos a ser medicada com base num diagnóstico errado (artrite reumatóide, creio). Nos últimos anos de vida, as articulações estavam tão deformadas que tinha de dormir com talas nas mãos para que os dedos não se fechassem sobre as palmas. Tinha dores constantes e dificuldade em efectuar alguns movimentos, como levantar-se de um sofá. Lembro-me de como se ria quando eu a imitava nesse esforço, com gemidos e balanços.

Ríamos muito, os dois. Vivíamos sozinhos, após anos a viver com outros familiares (tios, primos, o meu irmão Rui e a minha cunhada Eduarda). Um dia, umas semanas antes de falecer, foi para o hospital com muitas dores. Saiu da nossa casa, pela última vez, de maca. Tento imaginar esse momento através dos seus olhos: os corredores do prédio, as caras e os braços dos maqueiros, o filho de 14 anos ao lado, com ar aflito e impotente, as cabeças dos vizinhos a espreitar à janela, duas portas que se fecham, o tecto da ambulância, adivinhar o percurso ao som da sirene e a entrada nas urgências do hospital Santa Maria. Quando fui vê-la, com o meu irmão Rui, chorámos o tempo todo. Pediu ao meu irmão que tomasse conta de mim (e ele tomou) e que me ajudasse nos estudos (e ele ajudou, não obstante o suplício que foram as explicações de matemática!). Nunca mais esquecerei o seu olhar nesse dia, o olhar de uma mãe que sente e sabe que vai deixar um filho ainda por criar e dependente. Lembro-me de termos visto juntos um filme, “Laços de Ternura”, com a Shirley MacLaine, onde se passa uma cena semelhante. Poucos anos depois, vivemo-la os dois.

Lembro-me também de uma conversa que tivemos sobre a morte da minha avó (julgo que em 1971, dois anos antes de eu nascer). Disse-me a minha mãe que se lembrava muito dela e que, às vezes, chorava quando o fazia e eu, estúpido, perguntei-lhe como é que isso era possível após tantos anos. Não me recordo bem da resposta, mas foi no sentido de “um dia saberás”. A minha mãe educou-me consciente do pouco tempo de vida que lhe restava e dizia-me frequentemente que não viveria muito mais. Sempre que isso acontecia, eu reagia com um “ó mãe, por favor!...” e não pensava mais no assunto. Hoje, entendo que a minha educação foi para a minha mãe uma espécie de missão, a de dotar o filho, o mais cedo possível, com todos os instrumentos necessários para crescer com equilíbrio, desembaraço, responsabilidade, independência e respeito pelos outros. Modéstia à parte, e em termos gerais, acho que foi bem sucedida. Sei que a herança genética também conta (incluindo a do meu pai), mas sinto que os meus sucessos na vida se devem a esta aprendizagem. É por isso que, nos momentos em que me sinto triste por não ter a minha mãe comigo, me obrigo a sentir agradecido por aqueles 14 anos de vida em comum.

No entanto, durante anos, comparei, fazendo um triste balanço, a minha realidade familiar com a dos outros, com as suas famílias completas e aparentemente felizes. A morte da minha avó paterna (com quem vivi mais tarde) e a do meu pai, quando eu tinha 20/21 anos, veio alimentar este exercício de masoquismo e vitimização. A maturidade ajuda, claro, a varrer estas parvoíces da cabeça e, hoje, reconheço com felicidade o apoio, a amizade e o amor que recebi e recebo da família que me resta. E às recordações da minha mãe juntei um sem-número de pensamentos: como seria hoje a nossa relação?, continuaria eu a gostar assim tanto dela?, e ela de mim?, quantas vezes tê-la-ia eu desapontado?, telefonar-nos-íamos todos os dias?, almoçaríamos aos Domingos?, permitir-me-ia comparecer ressacado e a más horas?!, quais seriam os nossos assuntos de eleição?, etc., etc.

Se há coisa que a morte prematura da minha mãe me ensinou foi a fragilidade da nossa existência, deste fino, delicado fio que nos liga ao mundo dos vivos. Não sei se quem me conhece tem disto noção, mas na minha relação com os outros tenho quase sempre presente que poderemos estar a conversar ou a fazer seja o que for pela última vez. Não quer isto dizer, como é óbvio, que eu viva cada dia como se fosse o último (falta-me energia!); significa, sim, que vivo tais momentos com um forte sentimento de agradecimento e isto, penso, deve ser aquilo a que se chama alegria de viver. Quem conheceu a minha mãe, sabe que esta alegria era, também, um dos traços principais da sua personalidade, apesar da doença, do quotidiano suburbano após a boa vida de Moçambique, da falta de dinheiro e da ausência do amor passional e do sexo. Apraz-me sentir que, juntamente com os amigos e o resto da família, contribuí para a felicidade da minha mãe, pois tentei sempre ser um bom filho e mitigar, à medida das minhas possibilidades, as agruras que ela passou nos últimos anos de vida. Pensando melhor, acho que não tentei: o amor que ela demonstrava ter por mim era de tal modo profundo e generoso que não me restou alternativa senão retribuí-lo.

E porque continuas, dentro de mim, tão viva como nos nossos tempos, parabéns, Mãe. Olha que as lágrimas são de saudade, não estou triste...

Eduarda



Não, não é a Rainha Ginga nem, como é óbvio, Nossa Senhora de Fátima. É a minha cunhada bege e faz hoje, 13 de Maio, 49 anos. Como podem ver, está muito bem para a idade e gosta de ir trabalhar com umas vestes, como direi, que vendem boa disposição e revelam presença de espírito. Eu entendo, também sou funcionário público e isso, às vezes, tira-nos do sério. Eu, por exemplo, dou por mim a desejar encontrar o Alberto João Jardim quando vou almoçar ao refeitório. Nem a propósito, foi na Madeira que conheci a que seria a mãe dos meus únicos sobrinhos, o Hugo e o Daniel, e a única mulher do meu irmão Rui (para além da amante, claro). Segundo a própria (eu não me lembro), o nosso primeiro contacto não correu lá muito bem. Eu devia ter 5/6 anos e passei o tempo todo a tentar despi-la (de pequenino é que...) e ela só não me pregou duas bolachadas porque, enfim, não seria um bom cartão de visita para a minha família. Nessa altura, nenhum de nós adivinhava a forte amizade que o futuro nos guardava.

A biografia da minha cunhada - que não me atrevo a trazer para a blogosfera, por todas as razões - não é pêra doce, sobretudo a sua infância e, mais concretamente, em termos familiares. No entanto (ou talvez por isso mesmo), creio que não conheço outra mulher com um instinto familiar tão forte, tão constante, tão orientador das suas acções. Ela não é apenas a mãe dos filhos, a mulher do marido e a minha cunhada: é a estrutura deste núcleo familiar, é a aranha que, com o coração feito fiandeira, nos liga com minúsculos fios de atenção, amizade, afecto e amor. Vivi com ela, o meu irmão e os pequenos durante uma fase complicada da minha vida e, por isso, falo de dentro da teia, não fora dela. Chamo-lhe cunhada, mas também podia chamá-la mãe, irmã e melhor amiga, porque é um pouco de tudo isto que ela tem sido para mim ao longo dos anos.

Como se nota, sou um dos seus maiores fãs (e olhem que não são poucos!...) e não vejo como isto possa um dia mudar. Para quem não a conhece, posso descrevê-la como uma força viva da Natureza, cuja presença não deixa ninguém indiferente. Tenham em atenção que estas palavras podem aplicar-se tanto a um tornado como a uma famosa estrela de Hollywood e ela consegue ter o efeito de ambos (os filhos talvez sejam os mais qualificados para falar sobre o efeito tornado!). A sua energia, o seu humor e a sua generosidade, para além de ímpares, estão presentes em todos os quadrantes da sua vida e não esmorecem mesmo nas conjunturas mais difíceis. O dia de trabalho não correu bem? A nuvem negra fica à porta de casa. Os ácidos dão-lhe cabo do estômago? Nenhum dos amigos com quem almoça dá conta. O meu irmão moeu-lhe o juízo durante o fim-de-semana todo? Os colegas acham que ela adora 2.ª feiras!... Quem a conhece, sabe que estas imagens não são nada, só mesmo conhecendo a peça. Eu, graças ao meu deus, conheço-a bem e há muito tempo. E é por isso, Eduarda, que o meu peito se enche todo de orgulho sempre que falo da MINHA cunhada bege!...

PS - A título de esclarecimento, a minha cunhada só faz 46 anos. Foi só para ela ler estas linhas um tanto ou quanto irritada e não se derreter com os elogios. Parabéns, Duda!...

Segunda-feira, Julho 28, 2008

Encerrado

Definitivamente.